Valores & Carreira: O Que Realmente Direciona Suas Decisões?

Por Cecilïa CorŕëaSócia – Fundadora e COO ili Mentoring+

Ao longo da carreira, somos constantemente convidados a tomar decisões que parecem essencialmente racionais. Aceitar ou recusar uma proposta, permanecer em uma empresa, assumir uma posição de liderança, mudar de área, empreender ou recomeçar com uma nova atuação profissional. Quando esses momentos chegam, colocamos na balança remuneração, cargo, estabilidade, perspectivas de crescimento e outros critérios objetivos.

Todos eles importam. Mas talvez não expliquem completamente por que algumas oportunidades fazem sentido para uma pessoa e não para outra. Porque algumas decisões, por mais lógicas que sejam, não trazem a tão sonhada realização pessoal e profissional?

A literatura sobre desenvolvimento de carreira tem apontado que aquilo que uma pessoa valoriza profissionalmente está relacionado às suas preferências, escolhas e à forma como percebe sua relação com o trabalho. No entanto, existem estudos que analisam a influência dos valores relativos às emoções nas decisões de carreira que reforçam a relevância desses direcionadores na compreensão das escolhas profissionais.

Isso nos leva a uma pergunta importante: além dos critérios objetivos, o que realmente está direcionando suas decisões?

Valores como autonomia, desenvolvimento pessoal, equilíbrio, contribuição, liberdade, paz, felicidade, completude e liberdade são alguns exemplos de valores emocionais que podem assumir pesos diferentes para cada pessoa.

Por isso, duas pessoas podem desejar a mesma promoção por razões distintas. Uma pode enxergar naquela oportunidade a possibilidade de maior contribuição e outra pode buscar autonomia para tomar decisões. Da mesma forma, dois profissionais podem deixar uma organização, mas enquanto um procura novas possibilidades de desenvolvimento pessoal, o outro pode estar priorizando o equilíbrio que já não encontra naquele ambiente.

Ou seja, a escolha visível pode ser semelhante, mas o que a direciona pode ser diferente.

Uma pesquisa longitudinal publicada no Journal of Vocational Behavior acompanhou jovens adultos e encontrou associação entre valores intrínsecos de trabalho e maior ajuste entre pessoa e trabalho dois anos depois. O estudo reforça a ideia de que compreender aquilo que valorizamos emocionalmente pode ser relevante para pensar não apenas em qual oportunidade escolher, mas também na compatibilidade entre o profissional e o trabalho que ele realiza.

Há ainda outra questão importante quando nossas prioridades e valores podem se transformar ao longo da trajetória. Em determinado momento, crescimento e remuneração podem ocupar posições centrais. Depois, autonomia, desenvolvimento, equilíbrio, contribuição ou outros aspectos podem ganhar mais importância. Isso significa que uma decisão coerente em determinado estágio da carreira não necessariamente continuará fazendo sentido anos depois.

O risco aparece quando continuamos perseguindo objetivos definidos a partir de critérios que já não representam nossas prioridades atuais. Podemos continuar avançando porque aquele era o plano, porque existe reconhecimento associado ao caminho ou simplesmente porque nunca paramos para revisar o que realmente é importante para nós hoje.

É por isso que autoconhecimento aplicado à carreira não deveria significar apenas compreender nossos pontos fortes e pontos de melhorias apontados em testes comportamentais comuns. Também envolve revisar, periodicamente, aquilo que valorizamos e observar se nossas escolhas continuam coerentes com essas prioridades.

Nessa mesma perspectiva, torna-se fundamental ir além nessas análises e considerar também o ecossistema de trabalho no qual o individuo está inserido para que exista o alinhamento entre valores individuais e corporativos. O ambiente de trabalho exerce papel determinante, exigindo que a cultura organizacional reflita e dialogue com os princípios do profissional.

Outro estudo longitudinal publicado no Journal of Vocational Behavior encontrou uma associação positiva entre congruência de valores entre pessoa e organização e engajamento no trabalho. Os resultados também indicaram uma relação entre valores intrínsecos de carreira e maior engajamento durante a transição para a vida profissional.

Isso ajuda a compreender por que uma oportunidade considerada excelente pelo mercado pode não produzir a mesma experiência para todos. Não existe apenas a pergunta “essa é uma boa empresa?” ou “esse é um bom cargo?”. Existe também a pergunta “esse contexto é compatível com aquilo que valorizo e com o momento profissional que estou vivendo?”.

Essa mudança de perspectiva torna a análise de carreira mais completa. Decisões mais conscientes começam com perguntas melhores. Conhecer seus valores não significa decidir apenas pela emoção ou ignorar aspectos concretos da vida profissional. Significa incluir mais informação na decisão.

Remuneração, mercado, responsabilidades, segurança financeira e perspectivas futuras continuam sendo critérios fundamentais. No entanto, a diferença está em analisá-los junto com aquilo que cada profissional considera importante.

Antes de uma decisão relevante de carreira, algumas perguntas podem ajudar:

O que estou realmente buscando com essa escolha?

O que considero inegociável na minha vida profissional hoje?

Essa oportunidade está alinhada ao que valorizo ou apenas ao que aprendi a considerar sucesso?

Estou avançando em direção a algo que quero ou apenas reagindo ao que desejo deixar para trás?

Minhas prioridades profissionais de hoje são as mesmas de alguns anos atrás?

Não existem respostas universais para essas perguntas. E esse é justamente o ponto.

Uma carreira coerente não precisa seguir uma única definição de sucesso. Ela precisa fazer sentido para a pessoa que está construindo esse caminho. E, talvez, antes de perguntar qual deve ser o próximo passo, exista uma pergunta ainda mais importante: “O que realmente está direcionando as suas decisões?”

Porque compreender para onde queremos ir também exige clareza sobre aquilo que consideramos importante ao longo do caminho.

Referências:

Choi, Y. Work Values, Job Characteristics, and Career Choice Decisions: Evidence From Longitudinal Data. Review of Public Personnel Administration.

Sortheix, F. M., Chow, A. & Salmela-Aro, K. Work values and the transition to work life: A longitudinal study. Journal of Vocational Behavior, 2015.

Sortheix, F. M., Dietrich, J., Chow, A. & Salmela-Aro, K. The role of career values for work engagement during the transition to working life. Journal of Vocational Behavior.

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