Governança no Agro : o código da perenidade para empresas do Agro

Edição Especial: Lilia Fiest Milde

Ao longo de mais de 28 anos de carreira em gigantes do agronegócio, como Syngenta, Bayer e Monsanto, e também em empresas de distribuição agrícola, como Futuragro, Agrotec e Nutrien, testemunhei a evolução do setor de uma gestão puramente operacional a uma necessidade urgente na implementação da governança.

Hoje, como Conselheira Certificada, advisor e mentora, eu vejo que o maior desafio das empresas do agro não é apenas atingir as metas anuais, mas sim pensar na sustentabilidade da gestão e na visão de médio e longo prazo.

Nesta edição, compartilho minha visão estratégica sobre como a governança pode ser um diferencial competitivo para as empresas do agro, tanto as focadas na produção agrícola quanto na distribuição de insumos.

Os Pilares da Governança no Agro: Uma Visão Estratégica

A governança corporativa no agronegócio não é apenas um conjunto de regras; é o sistema pelo qual as empresas são dirigidas e monitoradas.

Segundo o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC [1], os quatro pilares fundamentais são:

Transparência, Equidade, Prestação de Contas (Accountability) e Responsabilidade Corporativa.

No contexto das empresas agrícolas de produção, esses pilares ganham contornos ainda mais críticos.

1. Transparência e Equidade: O Alicerce da Confiança e da Sucessão

Em empresas familiares, a linha entre o patrimônio da família e o da empresa é frequentemente tênue.

Minha experiência como líder de empresas familiares de distribuição me mostrou que a transparência na comunicação e a equidade no tratamento de todos os sócios (familiares ou não) são essenciais para evitar conflitos que podem paralisar o negócio e comprometer a sucessão.

“A governança no agro deve ser indutora da competitividade. Sem transparência, não há confiança; e sem confiança, a sucessão familiar torna-se um campo minado, ameaçando a perenidade do negócio.” [2]

No setor de distribuição, onde a gestão de crédito, de estoques e da relação com as multinacionais fornecedoras é crucial, a transparência nas políticas comerciais e financeiras é vital. A equidade, por sua vez, garante que as decisões beneficiem a empresa como um todo, e não apenas interesses individuais ou familiares, protegendo o capital e o futuro da organização.

2. Prestação de Contas e Responsabilidade Corporativa: Mitigando Riscos e Construindo Legado

Ao longo dos meus anos de experiência, aprendi que a prestação de contas não é apenas para os acionistas, mas também para todos os stakeholders. Em empresas de distribuição e produção agrícola, isso se traduz em responsabilidade perante fornecedores, clientes (produtores rurais) e a comunidade. A gestão de riscos, especialmente o risco de crédito inerente ao agronegócio, exige uma governança robusta que assegure a accountability e a responsabilidade na tomada de decisões.

No agronegócio moderno, a responsabilidade corporativa inclui a sustentabilidade ambiental e social. A governança garante que esses valores sejam integrados à estratégia de longo prazo e não apenas às campanhas de marketing. Para as empresas familiares de produção e distribuição, isso significa construir um legado que transcenda a geração atual, protegendo a reputação e o valor da marca no mercado.

O Desafio Humano: Imunidade à Mudança e à Perenidade Familiar

Muitas vezes, as empresas do agro, de produção e distribuição agrícola, têm o desejo genuíno de implementar governança para garantir sua perenidade, mas encontram barreiras invisíveis. É aqui que entra o conceito de “Imunidade à Mudança”, de Robert Kegan e Lisa Laskow Lahey [3].

Em minha atuação como mentora, observo que líderes e famílias empresárias frequentemente têm “compromissos concorrentes”. Por exemplo, o desejo de profissionalizar a gestão e implementar um conselho (compromisso A) pode colidir com o medo inconsciente de perder o controle direto sobre as decisões operacionais ou de diluir o poder familiar (compromisso concorrente B). Essa resistência à mudança, muitas vezes não verbalizada, é um dos maiores entraves à perenidade.

Minha Lição como Conselheira e Mentora de empresas: Para que a governança floresça e a empresa familiar garanta sua longevidade, é preciso identificar e trabalhar essas barreiras psicológicas.

A mentoria estratégica focada na governança atua justamente na superação dessa imunidade, permitindo que o líder evolua de uma mentalidade puramente executiva para uma visão de conselheiro e mentor, capaz de guiar a família e o negócio rumo ao futuro.

Estratégias para a Implementação de Governança e a Perenidade na empresa Agro

Com base em minha trajetória e nas referências de Machado Filho (2024) sobre legado e sucessão [4], aqui estão três passos estratégicos, com foco na perenidade da empresa familiar do Agro:

  1. A Criação de um Conselho Consultivo Atuante: Mesmo antes de um Conselho de Administração formal, um Conselho Consultivo bem estruturado, com membros independentes e experientes no setor, traz visões externas, mitiga riscos e profissionaliza o debate estratégico sobre crédito, mercado e sucessão. Ter uma visão externa ajuda a otimizar a gestão.
  2. Protocolo de Família Claro e Abrangente: Definir regras claras de sucessão, de entrada e saída de familiares do negócio, de remuneração e de resolução de conflitos é vital para a longevidade do negócio. Este protocolo deve ser um documento vivo, revisado periodicamente, que garanta a harmonia familiar e a continuidade da empresa, evitando que disputas pessoais afetem a operação de distribuição.
  3. Profissionalização da Gestão e Separação de Papéis: Separar a gestão (execução) da propriedade (governança) é o que permite ao agro brasileiro, e em especial às distribuidoras, competir globalmente. Isso envolve a contratação de executivos qualificados, a implementação de processos claros e a delegação de autoridade, permitindo que os sócios-proprietários atuem mais estrategicamente no conselho e menos no dia a dia operacional.

Conclusão: O Legado da Governança para a perenidade da empresa familiar do Agro

A governança não é um destino, mas uma jornada contínua, especialmente para as empresas do agronegócio que buscam a perenidade.

Minha experiência de 28 anos, passando por várias realidades de empresas multinacionais e familiares, me permitiu ver que o verdadeiro legado de um líder no agro é construir uma estrutura que sobreviva a ele, garantindo que a empresa continue prosperando por gerações, adaptando-se aos desafios do mercado e contribuindo para a segurança alimentar.

Se você acredita que sua empresa está no momento de estruturar a governança e que, como sócio ou executivo, precisa entender melhor por onde começar e como atuar, entre em contato conosco.

Com vários profissionais experientes, conselheiros e advisors do agro, a ili mentoring+ pode construir esta jornada de governança, buscando a perenidade e o legado da sua empresa.

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Referências Bibliográficas:

[1] Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. 6. ed. São Paulo: IBGC, 2023.

[2] Capella, R. Governança Corporativa no Agronegócio. LinkedIn, 2024.

[3] Kegan, R.; Lahey, L. L. Imunidade à Mudança: Como superar as barreiras e liberar o potencial em si mesmo e em sua organização. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

[4] Machado Filho, C. A. P. Governança, legado e sucessão familiar no agro. Revista Opiniões, 2024.

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